O Conselho Português para a Paz e Cooperação integrou uma delegação conjunta do Conselho Mundial da Paz (CMP) e da Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD) que visitou a Síria entre 21 e 26 de Abril, a convite da União Nacional dos Estudantes e do Conselho Nacional da Paz sírios. A delegação, da qual faziam parte os presidentes das duas estruturas internacionais, era composta por elementos de 29 organizações de 23 países, de África, América, Ásia e Europa.


Ainda na preparação da viagem a partir de Portugal, já a pressão das sanções contra aquele país se fazia sentir. O que era para ser um trajecto de viagem simples, com uma única escala em Londres, quase se tornou inviável, com o cancelar dois dias antes, dos voos para a Síria operados por uma companhia britânica, ainda assim após procurar alternativas em que o número de escalas e o tempo de espera aumentaram foi possível chegar a Damasco.
Este é seguramente um episódio sem importância face à agressão e à violência atroz que está a ser imposta à Síria e ao seu povo, mas espelha a preocupação de que não se saiba qual é a realidade nesse país por parte daqueles que hoje a procuram isolar.
As quase 60 sanções impostas pelos países da NATO e seus aliados à Síria são apenas uma das facetas da agressão a que esta está a ser sujeita. Pacote de sanções que procura afectar o povo sírio implicando o congelamento de bens de instituições financeiras sírias, a proibição da venda e do transporte de gás e combustível utilizados no aquecimento doméstico e na indústria, entre outras sanções que provocam a desestabilização da economia, o aumento significativo do desemprego e o aumento generalizado do custo de vida, que nalguns casos representa a duplicação do preço de bens de primeira necessidade.
Nesta deslocação a delegação pôde visitar a capital, Damasco, e Latakia, principal cidade portuária situada no noroeste do país. Realizaram-se encontros com instituições públicas, organizações da sociedade civil, partidos políticos, representantes do governo, líderes religiosos, tendo os membros da delegação circulalado e contactado livremente com a população nas ruas.
Se à partida era sabido que a informação que chegava a Portugal e ao resto do Mundo, através dos média dominantes não era de confiança, a estadia na Síria demonstrou que a mentira orquestrada contra o povo sírio não poderia ser maior nem mais descarada.
O povo Sírio encontra-se debaixo de um violentíssimo ataque, liderado pelos EUA e seus aliados da NATO e das tirânicas monarquias do golfo. A voracidade em assegurar o controlo de governos e recursos por parte das grandes potências ocidentais não respeita nenhum povo nem nenhuma vida. Jugoslávia, Iraque, Afeganistão, Líbia e agora a Síria, são alguns exemplos mais recentes de vítimas, desta voracidade.
Será talvez imperdoável, para os grandes grupos financeiros e económicos dos EUA e da UE, o facto do povo sírio ser solidário com a causa palestina, albergando no seu país cerca de meio milhão de refugiados palestinos e representações de todas as principais forças políticas palestinas; ou não baixar os braços perante a ilegal ocupação dos Montes Golã por parte de Israel, exigindo ao abrigo do direito internacional a sua devolução; ou ainda de ter socorrido e ter sido solidário com milhões de crianças, mulheres e homens iraquianos fugidos da guerra dos EUA ao seu país; isto é, do povo sírio não alinhar com as políticas e os objectivos de domínio das potências ocidentais para o Médio Oriente.
O ataque contra a Síria acontece em múltiplas frentes. Enquanto no terreno ocorrem ataques atrozes de grupos armados pelo exterior que, espalhando o terror, procuram promover a desestabilizarão do país através da violência, a nível internacional governos cúmplices e apoiantes destes ataques, aplicam sucessivos pacotes de sanções à Síria que prejudicam, antes demais, a sua população que hipócrita e alegadamente dizem querer proteger.
Nos média, utilizados como autêntica arma de guerra, uma campanha de desinformação mistifica o que de facto ocorre recorrendo a descaradas mentiras para procurar justificar a intensificação da agressão externa. Os relatos na comunicação social dominante ao nível internacional, incluindo na portuguesa, servem os interesses daqueles que procuram um criar as condições para promover uma «guerra civil» – através da exarcebação e instrumentalização das diferenças étnicas existentes – que, no fundo, procura mascarar a autêntica agressão externa em curso e o desejo inicial de invadir o país, tal como aconteceu na Líbia.
Os recentes massacres ocorridos na Síria merecem, sem dúvida, a mais profunda condenação, como actos de terrorismo de uma profunda, quase inqualificável, desumanidade. O assassinar de dezenas de civis, muitos dos quais mulheres e crianças, mortas por tiros à queima roupa ou degoladas é um acto que exige uma pronta e imparcial investigação para que os responsáveis sejam trazidos à justiça.
Mas a utilização destes acontecimentos, destas vítimas sírias, por parte daqueles que pretendem atacar o país, não pode deixar ser também denunciada e condenada. A tentativa imediata dos EUA de culpar o Governo Sírio pelo massacre, dizendo primeiro que se tratavam de vítimas da artilharia Síria e quando tal não era confirmado pelos observadores da ONU, afirmando que os culpados seriam milícias pro governamentais, sem que houvesse tempo para apurar o que de facto se tinha passa, sem que nenhuma prova do terreno indicasse nesse sentido, mostra bem as intenções dos EUA. Isto é, mostra quem está pronto a utilizar estes massacres para iniciar um ainda maior contra a população da Síria, que seria uma intervenção armada estrangeira em grande escala.
De sublinhar que o Governo Português num acto de autêntica subserviência, na sequência do massacre de Houla, imitou de imediato o governo norte-americano atribuindo, sem provas, a culpa do massacre ao Governo sírio e quebrando relações diplomáticas com aquele país ao declarar persona non grata a sua embaixadora para Portugal. Esta atitude do governo choca com os princípios constitucionais portugueses e nada tem a ver com a defesa da liberdade, da democracia ou dos direitos humanos, mas com a opção clara de isolar a Síria e prosseguir com as continuadas ameaças de uma agressão militar aberta por parte das grandes potências da NATO e dos seus aliados na região, uma atitude ainda mais agravada pelas responsabilidades acrescidas de Portugal enquanto membro temporário do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
A propósito desta campanha contra a Síria recordemos o que se passou, por exemplo, na Jugoslávia, em que o pretexto de “pôr fim imediato à violência e repressão” que estariam a ocorrer naquele território levou a que durante 78 dias, a Jugoslávia fosse sistematicamente sujeita aos bombardeamentos da NATO, que deixaram um rasto de morte e de destruição e incontáveis prejuízos materiais e económicos – os alvos militares foram mínimos quando comparados com os que tinham importância para a garantia das condições básicas de vida da população e para a economia do país. Foi uma flagrante violação da Carta das Nações Unidas e dos direitos humanos – um crime que provocou a morte a cerca de 4 mil pessoas e deixou mais de 10 mil feridos, a grande maioria civis, homens, mulheres e crianças, de todas as etnias, muitos dos quais ainda hoje sofrem as sequelas da guerra, nomeadamente os efeitos da utilização de munições de urânio empobrecido e de bombas de fragmentação pela NATO.
Contrário ao quadro difundido pelos média internacionais, o que foi dado a observar à delegação que o CPPC integrou foi que nas cidades visitadas existia uma vida normal. Por todas as ruas uma profusão de faixas e cartazes anunciavam candidatos às eleições parlamentares de 7 de Maio, trânsito, transportes e serviços públicos em funcionamento, cafés e esplanadas concorridos, comércio aberto, nos mercados abundância de produtos frescos. Se existia alguma perturbação ao normal funcionamento da vida quotidiana, ela não era facilmente perceptível. E em todos estes locais a convivência pacífica de várias etnias e religiões, demonstrava in vivo o discurso dos líderes religiosos e políticos, com que a delegação reuniu, que afirmavam que acima de uma identidade religiosa ou política unia os sírios precisamente o facto de serem sírios. Era o forte sentimento unidade nacional, que tinha impedido os grupos armados que actuam na Síria de “encontrar a sua Bengazi” dizia um professor universitário estabelecendo o paralelo entre a agressão a este país com a ocorrida contra a Líbia.
Dos vários encontros realizados, quer institucionais, quer as ocasionais conversas com pessoas nas ruas o que sobressai é a unidade do povo Sírio em torno da defesa da soberania nacional. Se em vários casos era referido descontentamento em relação à situação política e social na Síria que despoletou protestos populares pacíficos de há um ano atrás, a condenação da violência dos bandos armados foi sempre unânime, sendo também consensual o identificar que essa violência era fomentada a partir do exterior por potências estrangeiras, os EUA e seus aliados da NATO e as despóticas monarquias do golfo. Acrescente-se a este propósito que durante uma visita a feridos militares hospitalizados, quase todos indicavam a presença de estrangeiros nos grupos que os atacaram.
Da Síria a delegação traz também o pedido, feito inúmeras vezes nas reuniões e também por inúmeras pessoas na rua e que não escondia o sentimento de injustiça e de revolta perante as notícias dos canais internacionais, nem a preocupação pela agressão em curso contra o seu país: “Quando voltarem aos vossos países contem a verdade! Contem o que viram! Que a realidade Síria não tem nada de comum com o que dizem nos canais internacionais!”.
Da Síria a delegação regressa com a mensagem da recusa de qualquer intervenção externa, e de que compete e é desejo do povo Sírio decidir de forma livre e soberana o seu futuro.
 
 
in Seara Nova nº 1720